Nossas vírgulas

    aurora

 

Ao lado, o caldeirão,

quente, fora e dentro.

Ao lado, o ingrediente,

morno, ainda vivo – eu.

 

Acima, uma imensidão,

vaga, misteriosa, à minha espera.

Abaixo, o desconhecido,

talvez quente, talvez gélido…

 

Eles me esperam!

Talvez eu vá, talvez eu chegue,

Ou de repente desista.

 

Não há mais ponte!

Não há mais via!

À minha frente,

a sua fronte…

Talvez afronte,

Não mais a vejo…

É mais um dia.

 

(Majal-San)

 

Inferência

Inferência 

 

Eu já rimei exigente ali,

Já quebrei verso displicente aqui.

Eu já ironizei lá,

Já fui debochado cá.

Eu já me tornei libertino lá,

Já fui menino inocente acolá.

 

Eu já escalei a montanha daqui,

Já despenquei da beirada dali.

Eu já escorreguei nas estradas de lá,

Já fui empurrado das vielas de cá.

Eu já tropecei nas linhas de lá,

Já rasurei nas entrelinhas de acolá.

 

Eu já fiz amor na realidade daqui,

Já imaginei tua trepada ali.

Eu já tentei ou fingi ser poeta acolá,

Já fui sem nunca ter sido o amante aqui,

Na poesia as vulvas daqui,

Em poesia as bocetas de lá.

 

(Majal-San)

Confuso II

 

 

Atordoado

Vozes, ruídos, gritos

Gargalhadas tristes

Sussurros estridentes

 

Atordoado

Olhares, desvios, breu

Visões turvas

Miragem concreta

 

É a tua voz – todas as vozes

É a minha audição – perdição

É o teu sorriso – todo sorriso

É a minha visão – tentação

 

Atordoado

Perfume, desejo, olfato

Inodoro aroma

Adoro o inodoro

 

Atordoado

Toque, beijo, adeus

Imperceptível toque

Desejo o beijo – desejo

 

É a tua voz – sempre e sempre

É a minha audição – adição à ação

É o teu sorriso – o meu disfarçado

É a minha visão – a tentação.